Conexão Salvador: Cadernos de campo 1

12/22/202519 min read

Parte 1

Esta pesquisa foi realizada por meio de um intercâmbio cultural viabilizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, no ano de 2025, e integra a continuidade das investigações iniciadas a partir do livro Terreiros da Diáspora. O intercâmbio teve como foco a cidade de Salvador (BA), reconhecida como território fundamental para a compreensão das matrizes afro-brasileiras, de seus saberes, práticas religiosas, culturais e relações com os processos urbanos.

O trabalho se desenvolve como desdobramento direto das pesquisas realizadas anteriormente em Contagem (MG) e Belo Horizonte (MG), aprofundando os vínculos históricos, simbólicos e territoriais entre os terreiros da diáspora negra no Brasil. A pesquisa foi realizada por meio de uma comitiva do TeAto do Amanhã, composta por Jonata Vieira, Nayara Leite e Hyu Oliveira, que desembarcou na cidade em processo de investigação, intercâmbio e escuta dos territórios.

Os registros reunidos neste caderno de campo são de autoria de Jonata Vieira, Nayara Leite e Hyu Oliveira, e articulam pesquisa artística, etnografia urbana e memória. Organizados em forma de caderno de campo, os textos preservam o caráter sensível e situado da experiência, contribuindo para a valorização dos saberes tradicionais, para o fortalecimento das redes entre terreiros e para a ampliação do debate sobre ancestralidade, cultura e cidade no contexto contemporâneo.

                                                                             

Panela de Axé (Nayara Leite) 

Duas mulheres estão sentadas frente a frente diante de uma mesa farta de ingredientes. Preparam um grande banquete para a rainha. As panelas de alumínio brilham ao fundo, reluzindo as vestes brancas enquanto tomam café antes do início dos trabalhos. No ar, um silêncio atento. O tempo as espera para seguir. Não existe pressa. As ervas cheiram.

— Mãe, eu nunca fiz comida pra tanta gente assim.
— Menina, você tinha que ver se fosse pra uns 200… 300…
— Na última festa tinham quase 500 pessoas, mãe…

A mãe se concentra no café, sentindo o cheiro enquanto bebe. A filha observa a mesa e refaz contas que nunca fecham. Nunca entendeu isso de cozinhar para um número que não se sabe. A mãe sempre chama mais gente, sempre diz mais um, mais outro.

— E se não der, mãe?
— Comida é comida, sempre vai dar.

E sempre deu. A fartura que morava em seu axé fazia o cálculo ser exato. As pessoas comiam, repetiam e levavam pra casa. A filha ainda não sabia, mas com o tempo também irá aprender que ali fartura era um principio, todo mundo é bem vindo e comer é sagrado, todo mundo come.

Entrega

Uma mulher vestida de vermelho entra em cena. No palco, há uma mesa disposta com uma porção de bolinhos de feijão. Ela come e suspira, aliviada. Olha para a mesa com atenção; os bolinhos acabam. Então, pega a toalha da mesa e faz dela roupa para vestir, envolvendo o próprio corpo. Dança alegre, brinca com o tecido, o abraça. Pausa. Encara os presentes, dançando, alegre, um por um, e volta por onde saiu.

Salvador, 19 de novembro de 2025

                                                                                 

Com o mar dentro da gente (Nayara Leite) 

No dia em que anunciaram a abolição, bisa conta que todos correram para o mar. A notícia correu como toda boa nova corre: de boca em boca, em grito, em pressa. As pessoas atravessaram as ruas em direção à água. Era proibido chegar perto do mar, e essa foi a primeira regra quebrada, a primeira transgressão. A praia foi tomada. Bisa dizia que era lindo ver aquela areia negra reluzindo ao sol. Ela era pequena, ainda menina, estava confusa, com medo. Quando chegou mais perto do mar, não sabia que a água era gelada. Deu um salto no primeiro toque e logo foi carregada por outras pessoas para dentro da água. Ela contava que sorriu, imaginando que poderia fazer aquilo mais e mais vezes. E assim fez.

As cidades sempre se formaram em volta da água, porque onde tem água existe o poder da existência. Ainda assim, o mar foi sendo afastado de nós, mesmo depois da abolição. Vieram as cercas invisíveis, as distâncias impostas. O mar deixou de ser caminho e descanso e passou a ser exceção, lembrança distante, promessa adiada.

Mãe, como eu queria ver o mar com a senhora. Sinto que estou, há alguns anos, à frente do nosso encontro com o mar, como se o tempo tivesse me empurrado antes e deixado entre nós essa promessa suspensa.

Será que você se sentiu pequena como eu?

Como pode tudo nos impedir de um simples encontro com a água?

Mãe, eu vou te levar ao mar. Vou levar o mar até a senhora, pra gente viver a vida com cheiro de água salgada, com cheiro de partida e chegada, com o mar dentro da gente.

Salvador, 19 de novembro de 2025

Caderno de campo: A chegada (Jonata Vieira)

Salvador sonhada.
A chegada foi com chuva, é novembro.
A cidade se movimenta para a festa que, para quem está de fora, parece constante, mas, para quem está dentro, é visível que não.

A Avenida Sete iluminada pelo Natal, a Estação da Lapa lotada a qualquer hora do dia, a Avenida Joana Angélica e arredores com seu comércio popular, de rua, frenético.

A Feira de São Joaquim e seu cheiro único, do mar presente. As cabaças, palhas, frutas, ervas, imagens, tecidos e bichos, todos misturados no emaranhado de corredores. No centro da feira, novos prédios para lojas sendo construídos, uma tentativa óbvia de enquadrar a histórica e subversiva São Joaquim na lógica do que se estabeleceu como mercado. O piso irregular, os tantos Exus e Pomba-giras nas portas acompanham a caminhada.

As tantas ervas da feira dialogam diretamente com nosso trabalho, Da Terra, dando uma outra dimensão, uma vez que as ervas estavam quase todas secas, e na performance o trabalho acontece com ervas recém tiradas do canteiro. A mistura de cheiros cria um aroma único que se mistura com o cheiro do mar.

                                                                                 

Caderno de campo: O Pelourinho (Jonata Vieira)


Hospedados na Rua Ruy Barbosa, ao lado da Praça Castro Alves, o Centro Histórico se fez presente, ultrapassando as imensas janelas modernistas do edifício. Os sons e a luz tomavam o apartamento, fazendo, em muitos momentos, tudo ser uma coisa só. Na rua, muitas lojas de livros antigos e seminovos, além de antiquários em edifícios art déco, modernistas e neoclássicos, bem deteriorados, mas que parecem estar ganhando novos olhares.

Um quarteirão acima da Rua Ruy Barbosa, temos a Avenida Chile, primeira rua do Brasil, que até pouco tempo se encontrava degradada, com suas edificações em péssimo estado de conservação, mas que, nos últimos anos, virou do avesso, renovando-se de forma intensa, voltada para um público específico: o turista.

Uma cidade pensada para o turista se alastra com força, fazendo com que um território constituído por toda uma engrenagem complexa de séculos passe a ser lido de forma superficial. Caminhando na Avenida Chile, vasos de dois metros com palmeiras exóticas dão o tom da nova rua. Carros importados parados desembarcando passageiros, galerias de arte envidraçadas expõem o contraditório: dentro, champanhe; fora, uma pessoa em situação de rua é removida por um segurança do bar ao lado.

A Praça Castro Alves, com uma obra eterna, tem seus tapumes de latão que ultrapassam o tempo. Voltando à Rua Chile, alcança-se o Pelourinho, a pé, também fortemente higienizado e lotado de pessoas nitidamente lidas como turistas. Pergunto-me como o morador de Salvador se sentiu com todas essas mudanças, não só estéticas, mas monetárias.

O que significa a valorização da cultura? Valorização para quem? Para quem constrói ou apenas para quem visita?


Um corpo estranho em Salvador (Hyu Oliveira)

É dia em Salvador. Eu começo a manhã acendendo um cigarro enquanto sento no meio fio da calçada. Várias pessoas passam por mim e me dão um bom dia caloroso. Pelo visto não são apenas os mineiros que cumprimentam todo mundo que encontram na rua.

Não são todos que recebem uma resposta minha. Não sou um mineiro comum. Não gosto de conversas fiadas. Respondo apenas aqueles que reservam um momento para olhar pra mim de verdade.

Estou de saia, camiseta, óculos escuro. Querendo ou não, sou um corpo estranho-estrangeiro-alienígena. Minhas roupas e trejeitos femininos contrastam com minha pose e meus traços masculinos. Os olhares são confusos. Alguns sorriem, alguns julgam, alguns são curiosos, alguns se desviam.

Um homem preto se aproxima e pede um cigarro. Eu abro o maço, tiro um paiol e entrego pro moço. Ele estranha o presente e me pergunta o que é. Eu digo que é um cigarro de palha e que é melhor que o branco. Típica mineirice, achar que os produtos locais são melhores que os de qualquer outro lugar do mundo. Ele mexe no boné, observa o cigarro e fala que vai guardar pra mais tarde. Me agradece enquanto vai embora e eu continuo fumando.

A fumaça sobe e pessoas continuam passando. Quase todas são negras. Muitas são idosas negras. Vou te dizer, Salvador realmente é a capital negra do Brasil. Fico feliz de ver tantas pessoas negras pela cidade ocupando todo tipo de espaço.

Logo me veio à mente o quanto o Brasil é contrastante. Há alguns anos, minha mãe se mudou do interior de Minas para Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. Ela nasceu na Bahia e sua família se mudou pra Minas quando ela ainda era criança. E lá ela ficou até completar 60 anos, quando, do nada, resolveu morar no sul do país.

No sul as coisas são diferentes, posso te dizer. São poucos negros e eles estão em espaços específicos. Eu via negros nos ônibus, mas não via nos restaurantes, com exceção de um ou outro garçom ou faxineiro negro. Mas o mais curioso de observar era como aquela cidade afetou o entendimento da minha mãe sobre sua própria raça.

Talvez seja importante descrevê-la pra que vocês entendam melhor. Te peço licença, mãe. Ela é uma mulher muito bonita e vaidosa. Gosta de se arrumar e está sempre com cabelos, as unhas e a pele bem cuidados. Ela alisa o cabelo desde criança e manteve esse tratamento por décadas. Com isso, muitas pessoas nem sabiam que ela é cacheada. Seus olhos são castanhos, um pouco mais claros que os meus. Mas por muitos anos ninguém via essa cor por causa das lentes de contato verdes que ela usava dia e noite. A pele dela também é mais clara que a minha, que já não é tão escura. Depois de idosa, ela resolveu fazer sua primeira tatuagem. Enorme, na coxa direita, feita em cima de uma cicatriz. Sendo assim, no conjunto da obra, minha mãe parecia uma mulher branca. Ou pelo menos era assim em Minas Gerais.

Em Porto Alegre, a máscara embranquecida caiu bem rápido. No primeiro salão de beleza que ela visitou, a cabeleireira indicou que ela deveria buscar um salão especializado em "cabelos afro". Esse momento foi um insight e um choque. Pela primeira vez ela ouviu que deveria frequentar um lugar diferente do "lugar dos brancos". Lá ela não se mistura, mesmo com a pele clara e os disfarces.

Agora, para que vocês me enxerguem melhor, vou me descrever. Minha mãe diz que eu sou uma pessoa muito bonita. Puxei a vaidade dela. Gosto de me arrumar e de me vestir bem. Tenho preferência pela moda considerada feminina. Quase sempre uso brincos, colares, anéis. Às vezes pinto as unhas. Gosto de usar maquiagem quando saio, nem que seja só nos olhos. Meu cabelo é cacheado e eu amo deixar meus cachos longos. Meus olhos são bem escuros, quase pretos, e puxados. Minha pele é marrom com um tom avermelhado, uma cor descrita por muitos como "cor-de-jambo". Não tenho nenhuma tatuagem, mas tenho várias cicatrizes. Sendo assim, no conjunto da obra... não é tão simples me definir.

Gosto de me identificar como "suco de Brasil", mas por questões demográficas me autodeclaro uma pessoa parda. A pardidão é um lugar confuso, porque ela também é um "não-lugar". Sua definição acaba ficando à mercê de uma referência externa e do olhar de terceiros. Ao longo da vida já me nomearam como sendo de várias raças diferentes, de diversas regiões do planeta. É sempre muito engraçado quando me dão uma origem asiática por causa dos olhos, como Índia ou Japão, porque isso demonstra como o Brasil desconhece sua própria origem.

Eu não julgo quem me enxerga assim, só acho curioso. Não tem razão pra julgar, porque eu mesmo não sei minha origem. Minha descendência é um mistério de família que provavelmente nunca vai ser desvendado, pois aqueles que podiam contar a história já morreram há muito tempo. O máximo que sei é que a família paterna morava no estado de São Paulo e a materna na Bahia.

Em Minas, eu cresci me encaixando em vários não-lugares, porque eu sempre era "diferente". Não importava o espaço ou o grupo, em todos eles eu era esquisito de alguma forma.

Acabei me acostumando com a sensação de não pertencer, mas o instinto humano sempre me incentivou a buscar um agrupamento. Nesse desejo de me encaixar, sonhei com várias possibilidades de futuro que pudessem aliviar meu sentimento de ser alienígena. Salvador já foi um desses sonhos.

Eu nunca vim à Bahia antes. Na verdade, fui pra Porto Seguro com um ano de idade, mas não lembro de nada, obviamente, então não conta. No entanto, por ser a terra da minha mãe, ela sempre esteve por perto, dançado comigo em meus sonhos. E assim eu imaginava como seria morar em Salvador, mesmo sem conhecer a cidade. Será que eu encontraria pessoas parecidas comigo? Será que eu seria aceito? Como será que vão me enxergar?

Agora tô aqui. Em Salvador. Pela primeira vez. Me sinto mais confortável do que me senti em Porto Alegre. Aqui consigo ver pessoas mais parecidas comigo. Enxergo meus traços refletidos em outras pessoas, mesmo que seja um detalhe ou outro. O contraste na minha percepção racial é muito palpável. Em Porto Alegre eu sentia que o diferente era eu, em Salvador eu sinto que sou só mais uma mistura no meio de várias outras.

Porém, aqui ainda me percebo como um corpo estranho. Não é minha pele que chama a atenção, mas sim meus trajes e meu jeito de ser. Minha amiga Jonata disse que isso é um reflexo do machismo forte do nordeste. Eu, feminina como sou, não sou muito bem visto, pelo jeito. Mas essa sensação esteve presente nas duas cidades. Ora, ela é presente até mesmo em Belo Horizonte, cidade que eu conheço tanto. O sistema se mantém.

À noite, eu e minhas amigas decidimos sair pra região da praia da Barra, que dizem ser um local muito frequentado pela população LGBTQIAPN+. Eu resolvo abusar do delineado. Uso um preto e um branco. Olhos bem marcantes.

Assim que eu tiro o pé do Uber um homem me encara bem fundo. Desejo ou estranhamento? Talvez os dois? Aquele olhar me atravessa rápido, mas eu não faço nada. Sigo andando. Nas ruas, outros olhares curiosos. Isso me traz uma sensação de estar em performance. Eu caminho enquanto sou observado. O olhar das pessoas fala comigo em códigos difíceis de decifrar e a curiosidade cria tensão.

Mesmo que eu não sinta violência nos olhares, é como se dissessem: você pode existir aqui, mas vai precisar sustentar quem é. Continuo incapaz de esconder quem sou e passar despercebido.

Eu sei que isso também é resultado das minhas próprias escolhas estéticas. A maquiagem forte é uma característica que chama a atenção por si só, não dá pra negar. Mas quem sente o que eu sinto sabe que não é só isso. Eu posso andar sem maquiagem e começar a me vestir como os outros se vestem, mas ainda assim não vou me tornar invisível. Algo em mim grita que sou esquisito. Eu ainda seria como minha mãe no salão em Porto Alegre com seu cabelo alisado. Seria uma máscara frágil, que esconde quem eu sou de verdade, mas que não consegue mudar minha imagem. Por isso eu acho melhor não me esconder e prefiro me destacar. Se querem me olhar, que me olhem por inteiro.

Acho que Salvador também é assim. A marca de “capital negra” a diferencia de outras capitais brasileiras que tanto tentam se embranquecer e se europeizar, pois a negritude recebe destaque ao invés de ser escondida. Salvador assume que é negra e ser negro no Brasil gera um grande contraste em como somos analisados pela sociedade. Como canta o Ilê Aiyê: "Nos teus olhos sou mal visto. Diz até tenho má índole, mas no fundo, tu me achas bonito, lindo!".

A autodeclaração racial de Salvador não vem sem contradições, afinal, a cidade também é branca. Os terreiros convivem com igrejas católicas históricas e as pessoas transitam entre o candomblé e o cristianismo. Os últimos prefeitos e a maioria dos vereadores são brancos, enquanto que a maior parte das vítimas de assassinatos e violência policial são negras.

Digo isso não como uma crítica à cidade, apenas uma observação. O Brasil é esse lugar contraditório: mistura tudo, mas estranha quem não se mistura do jeito certo. Celebra a diversidade, mas regula os corpos. Nasceu da encruzilhada, mas ainda teme o que não cabe em uma única estrada.

Eu também sou encruzilhada. Sou uma mistura de vários caminhos que fazem parte do meu corpo, minha pele e meu gesto. Mas o Brasil gosta de mistura desde que ela fique silenciosa, domesticada, explicável. E eu, como Salvador, não consigo ser assim. Essa cidade me lembra que a encruzilhada não é um problema. É um princípio. Onde os caminhos se cruzam, se chocam, se reinventam.

Nossa noite na Barra acaba em chuva forte. Por sorte, a gente sentou em uma parte coberta de um bar que também era na rua, então eu ainda podia fumar enquanto esperávamos a chuva baixar pra ir embora. Por azar, eu estou sem isqueiro e sempre que quero fumar preciso procurar um companheiro fumante, algo que não é tão comum em Salvador quanto em Belo Horizonte. Na mesa do lado tem uma pessoa linda. Ela é branca, pele muito clara, tem cabelo curto e liso e é cheia de tatuagens. Está com uma maquiagem bem simples no olho, apenas um traço pequeno nos cantos dos olhos. Ela acende um cigarro bem na hora que eu pensei em fumar. Chego perto sorrindo, cumprimento e ela me oferece o isqueiro antes mesmo que eu peça. Trocamos olhares e nessa troca nossos olhos transmitem mensagens que foram fáceis de decifrar. Mesmo sendo tão diferentes, eu me via nela. E assim, mesmo que por um pequeno momento, eu não me sinto estranho.

Ela elogia minha maquiagem e eu retribuo o elogio. Acendo o cigarro, devolvo o isqueiro e digo "obrigado". Ela, num provável ato falho (ou não), devolve: "obrigado". Eu volto pra minha mesa e não interagimos mais. Uma troca rápida, quase insignificante, porém marcante ao ponto de eu conseguir decorar os traços do rosto da pessoa e pensar nela antes de dormir.

Ambos somos mistura. Cada um, um corpo em trânsito. Transformadores e transformados. Nem invisíveis, nem assimilados.

                    TeAto da Manhã (Hyu Oliveira)

- E ela vai correndo, exagerada - Jonata reclama enquanto Nayara adentra a Feira de São Joaquim, em Salvador.

É manhã e precisamos comprar ervas para uma performance que faremos no dia seguinte, além de alguns ingredientes para uma moqueca de banana. Antes mesmo de chegar na entrada da Feira eu já estava de nariz torcido. O cheiro de peixe morto me incomoda muito.

Nayara tá com pressa, pelo visto. E eu confesso que eu também. Queria parar de sentir aquele cheiro o quanto antes. O problema é que a Nayara tá na frente, eu estou atrás e o Jonata tá no meio. Ele tá sendo o mais tranquilo do trio, o que geralmente não acontece, porque Jonata é acelerado. Mas parece que pra ele a Feira é um museu, porque a bixa anda olhando de um lado pro outro.

Dificilmente alguém é mais tranquilo do que eu. Nada mais me abala. Ou quase nada. Nesse momento, tô abalada. Tô fazendo três trabalhos ao mesmo tempo, num lugar que eu não conheço e com o nariz irritado, enquanto discuto com o boy sobre monogamia por whatsapp. Aquela coisa… Começo de relacionamento, paixão, insegurança, acordos, cês sabem. Ele pediu pra eu não ficar com ninguém durante a viagem e eu concordei, porque, sinceramente, não tava com a mínima vontade de trocar saliva com outra pessoa. Acontece que, nesse grupo, eu sou a advogada da não-monogamia e Jonata não deixou barato quando eu contei que não podia beijar ninguém.

- Virou monogâmica, bixa?

Então, eu estava sensível, porque me sentia hipócrita, mas não podia fazer nada, porque tava ocupado trabalhando. Esse é um problema pro futuro.

Enfim… Eu tava atrás, porque resolvi registrar a manhã de hoje em fotos e vídeos pra criar conteúdo para as redes sociais da companhia. Por isso eu tinha que ficar nos bastidores, com o celular na mão pra gravar Jonata e Nayara andando pela feira e fazendo compras.

A Nayara é a mais resolutiva entre nós três, talvez porque também é a mais ansiosa. Por isso ela tá a três metros na nossa frente, sendo esse o motivo da reclamação de Jonata. A dinâmica das duas é muito engraçada, pois minutos depois a Nayara vai reclamar a mesma coisa sobre ele.

O cheiro de peixe logo passa, dando um lugar a um cheio de ervas e frutas, o que me tranquiliza. Começamos a comprar as primeiras plantas. Alecrim, boldo, peregum, couve e outras folhagens, além de banana, tomate, pimentão e cenoura. Eu fico encantado pelos preços: 3 reais cada maço de ervas, 4 reais cada sacola de hortifrúti.

A Feira de São Joaquim, como qualquer feira, é muito colorida, mas se eu tivesse que escolher uma paleta, seria algo entre verde, vermelho e marrom, que de certa forma são apenas duas cores, porque verde e vermelho juntos viram marrom.

O verde das plantas.

O vermelho do sangue e das carnes.

O marrom das palhas e madeiras.

Jonata tá com uma roupa justamente com esses três tons, enquanto eu e Nayara fugimos pra algo mais rosa, mas podemos dizer que a gente tava combinando com o local. Ou estaria, se eu não estivesse com o celular na mão gravando tudo.

Vejam bem como o ato de registrar faz tudo ser diferente. O fato de eu estar filmando faz tanto com que as pessoas da feira nos vejam de forma diferente, quanto faz com que Nayara e Jonata ajam de uma forma não-cotidiana. Até mesmo eu, que gravo e não sou gravado, estou fora do meu comportamento natural, porque estou em prontidão para fazer um bom trabalho. A câmera faz todos nós performarem, pois ela estar ligada nos dá a noção de estarmos sendo observados e avaliados.

Ou seja, não tem ninguém normal nessa história. Mas tudo bem, porque não tem nada de normal no TeAto do Amanhã. Até nosso nome é esquisito. A gente acaba precisando usar duas letras maiúsculas em uma mesma palavra pra que não nos confundam, mas ao mesmo tempo a gente adora confundir as pessoas. Eu sou estranha, a Jonata é doida, a Nayara é quente, mas ao mesmo tempo, eu sou simples, a Jonata é centrada e a Nayara é sóbria.

Nós acabamos chamando a atenção e muita gente nos olha, principalmente os homens. É difícil saber pra qual de nós três eles olham mais e também qual a intenção dos olhares, mas de qualquer forma acho que fica evidente que não somos comuns para esse espaço. No entanto, o tratamento que recebemos das pessoas é extremamente cotidiano. Nos venderam o que tínhamos que comprar como fazem com qualquer outra pessoa.

Essa ida à feira é um evento em que nada acontece, mas não deixa de ser um momento digno de ser registrado, porque evidencia vários contrastes pelo simples fato do registro estar sendo feito.

Tá quase na hora do almoço e, nesse estado, nossos conflitos internos enquanto grupo se afloram. Agora é Jonata quem anda na frente, Nayara no meio, eu ainda no fundo. Chegou a hora dela reclamar da pressa dele.

- A bixa não espera ninguém - diz ela

E realmente não espera. Por que esperaria? Isso é algo que temos em comum. Nenhum de nós três tem paciência pra esperar. Nossa existência não permite espera, pois nosso tempo afeta nossa sobrevivência. Pra nós, é melhor que os outros alcancem o ritmo dos nossos passos rápidos, pois essa é nossa estratégia para fazer o futuro chegar mais rápido.

Não andamos juntos por acaso. Mesmo desalinhados, formamos uma engrenagem estranha que só funciona daquele jeito. Um puxa, outro observa, outro registra. Não combinamos isso antes. A dinâmica se impõe sozinha, como um corpo coletivo. Não trocamos de lugar com facilidade, porque essa distribuição sustenta o percurso. Se alguém sai da própria função, o deslocamento emperra. Seguimos, então, confiando que cada um faça o que sabe fazer melhor.

Andar assim exige atenção constante. Não dá pra desaparecer completamente nem se impor o tempo todo. É um exercício de escuta em movimento para sustentar o percurso até o fim.

A câmera ligada faz com que tudo pareça ensaiado, mesmo não sendo. Caminhar vira ação. Comprar vira gesto. Olhar vira resposta. Tudo isso poderia passar despercebido, ainda assim, algo se desloca. Um ajuste fino, quase imperceptível, mas denso.

Os vendedores, por sua vez, não se afetam por nossa urgência. Eles esperam. Respondem com calma, informam os preços, indicam outra banca. Somos nós que destoamos. A feira nos recebe, mas não se adapta, porque ela não precisa chegar a lugar nenhum. Ela já está onde tem que estar.

Entendam que nossa pressa não é desrespeito. É herança. Um aprendizado ancestral e social que vem de uma tática de sobrevivência. Quem destoa recebe a mira, por isso precisa estar sempre em movimento, ser ágil e atento.

Saímos da feira carregando sacolas e um leve desajuste interno. Nada mudou visivelmente, mas algo entrou em sincronia. Não houve ápice, revelação ou virada, porque não foi necessário. Comprar ervas não é o objetivo final, é só o início. Cortar caminho entre as bancas ainda não é o ato, é apenas uma necessidade. Mesmo assim, tudo isso já faz parte da performance, pois prepara o corpo para algo que ainda não chegou.

Assim, essa manhã simples se torna oferenda para o que vem amanhã: nossa moqueca de banana e um ato na chuva.

  Chamaram a polícia para Iansã (Nayra Leite)

Chamaram a polícia para Iansã, acredita? São coisas que acontecem no Brasil. Sim, Iansã, trabalhadora, mãe de nove, que sempre está ali quando os seus filhos precisam. É, amigos, não importa quem você é. Iansã estava na escola, com as crianças, ensinando sobre o quê? Ensinando sobre respeito às diferenças, sobre a possibilidade de expressar a própria crença sem medo. Um grande crime.

Mostrar às crianças tudo aquilo que elas não podem ser. Para essa presepada, chamaram doze policiais. Chegaram dizendo que ela estava errada, que as crianças não deviam aprender algo tão errado assim. Queriam levá-la com eles, deram voz de prisão a Iansã. Foi então que Iansã virou búfala. Aproximou-se das crianças, que já a conheciam com intimidade, deixou cair um de seus chifres, e uma delas o pegou, apertou contra o peito e atravessou o espaço lentamente, passando por todos eles, olhando um a um nos olhos. Ninguém teve coragem de encostar sequer um dedo nela. Ao chegar próxima da porta, Iansã disse que no dia seguinte voltaria no mesmo horário e que, se tivessem coragem, aparecessem de novo.

Iansã voltou. Segue cumprindo suas quarenta horas semanais no cargo completo. Visita às crianças constantemente. Passou a morar no vento da palavra delas. Afirma que a terra é redonda, que as pessoas são diversas, que não existe uma única verdade de um povo só. Ensina que a vida é bonita de se viver quando há respeito e ensina as crianças a serem fortes também, a reivindicarem seus direitos de aprender. E isso, no Brasil, é muito perigoso.

Iansã nunca foi embora e nunca vai. Coitado é de quem achou que ela poderia ser amedrontada.

Salvador, 20 de novembro de 2025

                                                                                             

Sem Título (Nayara Leite )

Nota metodológica

Este caderno de campo integra um processo de pesquisa artística e territorial desenvolvido a partir de deslocamentos, imersões urbanas e experiências sensoriais vividas na cidade de Salvador. O registro não se pretende neutro ou totalizante, mas assume uma escrita situada, atravessada pela percepção do corpo, pela escuta, pelo olhar e pela memória.

A metodologia articula procedimentos da etnografia urbana, da pesquisa em artes e dos estudos culturais, valorizando a observação participante, o contato direto com os territórios e o diálogo com saberes afro-brasileiros e populares. Os registros foram produzidos durante caminhadas, permanências e encontros em espaços públicos, religiosos e culturais, considerando cheiros, sons, ritmos, arquiteturas e relações sociais como elementos constitutivos da análise.

A escrita em forma de caderno de campo preserva o caráter fragmentário, sensível e reflexivo da experiência, compreendendo a cidade como um campo vivo de disputas simbólicas, políticas e econômicas, onde memória, ancestralidade e urbanização se tensionam continuamente.

Jonata Vieira