Conexão Salvador: Cadernos de campo 2
Parte 2: Os registros reunidos neste caderno de campo são de autoria de Jonata Vieira, Nayara Leite e Hyu Oliveira, e articulam pesquisa artística, etnografia urbana e memória, a partir de viagem realizada na cidade de Salvador (BA) em novembro de 2025.
12/24/202516 min read


Parte 2
Esta pesquisa foi realizada por meio de um intercâmbio cultural viabilizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, no ano de 2025, e integra a continuidade das investigações iniciadas a partir do livro Terreiros da Diáspora. O intercâmbio teve como foco a cidade de Salvador (BA), reconhecida como território fundamental para a compreensão das matrizes afro-brasileiras, de seus saberes, práticas religiosas, culturais e relações com os processos urbanos.
O trabalho se desenvolve como desdobramento direto das pesquisas realizadas anteriormente em Contagem (MG) e Belo Horizonte (MG), aprofundando os vínculos históricos, simbólicos e territoriais entre os terreiros da diáspora negra no Brasil. A pesquisa foi realizada por meio de uma comitiva do TeAto do Amanhã, composta por Jonata Vieira, Nayara Leite e Hyu Oliveira, que desembarcou na cidade em processo de investigação, intercâmbio e escuta dos territórios.
Os registros reunidos neste caderno de campo são de autoria de Jonata Vieira, Nayara Leite e Hyu Oliveira, e articulam pesquisa artística, etnografia urbana e memória. Organizados em forma de caderno de campo, os textos preservam o caráter sensível e situado da experiência, contribuindo para a valorização dos saberes tradicionais, para o fortalecimento das redes entre terreiros e para a ampliação do debate sobre ancestralidade, cultura e cidade no contexto contemporâneo.
Texto sem título (Nayra Leite)
Hoje observei novamente o movimento de duas mulheres que vendem banana numa praça. Havia uma fila enorme de mulheres para comprá-las. Aproximei-me por curiosidade e, de perto, percebi que cada uma pegava apenas uma banana, guardava num bornal e seguia andando. Não havia pressa, mas havia urgência.
Quando o cacho estava próximo de acabar, cheguei mais perto. Elas me olharam em silêncio. Achei que não precisasse pedir. Tirei uma moeda qualquer do bolso e ofereci. As duas se entreolharam com estranheza e me perguntaram se eu realmente sabia o que aquilo era. Não soube responder. Muita coisa passou pela minha cabeça ao mesmo tempo.
Via tantas mulheres sendo atendidas, uma após a outra, como num serviço público improvisado, e pensei que também queria. Era só isso, pensei. Então elas perguntaram: para quem é? Olhei nos olhos delas e, de algum modo, entendi o que estavam dizendo sem dizer. Respondi que ia guardar. Nunca se sabe quando vai precisar.
As duas assentiram juntas. Me deram a banana. Não pegaram a moeda. Uma delas me abraçou. A outra me deu um sorriso de afirmação. Saí dali com a banana guardada. A fila continuava.
Salvador, 23 de novembro de 2025
Caderno de campo: O Curuzu (Jonata vieira)
Durante o mês de novembro, Salvador realiza uma espécie de programa-festival, “Salvador Capital Afro”, com uma robusta programação que estimula a afirmação afro-brasileira na cidade e o combate ao racismo. Como parte da programação, o Bloco Afro Ilê Ayê, referência de música, arte e tradição para o Brasil e o mundo, realizou uma comemoração com samba, repertório do bloco e convidados, em sua sede, na Ladeira do Curuzu.
“Quem é que sobe a ladeira do Curuzu?”
Festa no galpão do bloco e festa na rua: a ladeira vibrava em um sábado à noite. A festa da rua dialoga com a festa de dentro — o paredão, as bebidas, o pagodão baiano. Dentro do galpão, um espaço imenso, um super palco, fez-me entender a dimensão de tudo e a necessidade de experiências como esta, de uma sede dessa magnitude se espalhar pelos grupos da arte e do carnaval. O TeAto do Amanhã vem há oito anos desejando uma sede. Vários grupos e companhias vêm sendo despejados ou ameaçados de despejo; precisamos entender a importância urbana dessas presenças nos territórios.
O bairro, a ladeira, transportaram-me para Belo Horizonte (BH), fizeram-me sentir no bairro São Paulo, na Serra, e em outros locais muito similares em termos de ocupação urbana do espaço. Interessante a quantidade de conhecidos de BH lá, uma afirmação de que as duas cidades estão vivendo trocas significativas do ponto de vista do intercâmbio cultural.
Caderno de campo: Ilé Òsùmàrè Aràká Àse Ògòdó (Jonata vieira)
Em janeiro de 2025, estive hospedado no Bairro da Federação, podendo estar em imersão na dinâmica do território, um bairro diverso, com favelas e tudo o que as caracteriza, além dos condomínios de prédios populares. O famoso bairro das músicas de Caetano também abriga um conhecido terreiro, o Ilê Òsùmàrè Aràká Àse Ògòdó.
Tive contato com o Ilê durante minha adolescência, há 15 anos, acompanhando pelas redes sociais. Nesta viagem, fomos recebidos por Pai Tinho, por indicação direta de Mãe Débora, liderança no Ilê Axé Odé Inlê, em Contagem (MG). O terreiro de Mãe Débora tem Oxumarê como raiz, sendo ela neta, e foi nessa relação que nos emaranhamos e chegamos até a Federação.
Conhecemos de perto quase todo o espaço sagrado da casa, do chão de terra batida da casa de Obaluaiê até a sede histórica, com seu teto nas cores do arco-íris. Aprofundamo-nos nas lutas que a casa travou durante décadas diante do processo de urbanização predatória do entorno, retomando episódios de grande importância, como a defesa de Mãe Nilzete contra a perda do terreno e o corte do Iroko, árvore-orixá.
A Federação não se fez a mesma de tantas visitas anteriores. O Ilê e sua grandiosidade mantêm vivo um legado centenário, patrimônio vivo do nosso país.
TeAto da Tarde (Hyu Oliveira)
O dia seguinte chegou com uma nova integrante pro grupo: Iasmim. Já está na hora do almoço e eu e Nayara estamos cozinhando. Iasmim não consegue entrar no apartamento, porque Jonata saiu, trancou a porta por fora e levou a chave. Alguns minutos se passam e Jonata retorna, assim nossa quarta membra entra no chat.
Estamos cozinhando uma moqueca de banana da terra, um prato vegano. Nayara é vegetariana e eu não como peixe. Como vocês já sabem, não suporto o cheiro de peixe morto. Por isso, a fruta entrou no lugar do animal.
Logo mais temos que sair para realizar a performance e ainda não nos arrumamos, o que novamente traz uma sensação de pressa. Ainda assim, o almoço não se acelera. Sentamos à mesa para comer e conversamos com calma. Durante o papo, eu pego o celular, acesso o instagram e abro uma foto do boy pra mostrar pras amigas. Pergunto como elas o identificam racialmente. As três fazem uma análise sobre o garoto, comentando sobre a cor da pele, traços do rosto, cabelo, corpo.
- Mas, assim, ele é um gostoso - diz Iasmim
A gente discute também sobre as possíveis origens da família do boy de acordo com as suas características físicas, apontando que podem ser indígenas, negras ou brancas. Eu apresento o nome dele, rindo, porque é de origem italiana. A graça é que eu sei que a família dele não tem nada de italiana, o nome foi uma invenção de um avô.
Que audácia a nossa, não é? Definir a raça e a origem de alguém por uma foto. Não sei se me agrada fazer isso, mas eu estava muito curioso pra saber o que minhas amigas pensavam, então perguntei mesmo assim.
- Pardo com passabilidade branca - definimos por fim, brincando.
Nosso objeto de análise muda. Agora é a Nayara. Ela conta que uma moça disse que ela não é preta, e sim parda. Jonata fica revoltado com isso. Pra ele, Nayara é preta e ponto final. A pessoa que pardalizou minha amiga, pelo que disseram, tem a pele retinta.
Vejam, o boy transitou entre o pardo e o branco e Nayara transitou entre o pardo e o preto, com base em opiniões de pessoas diferentes. Eu, que conheço o boy pessoalmente, sei que em alguns contextos algumas pessoas o enxergam e o identificam como branco. Ou seja, parece que pra definir o tom de marrom, depende de qual é a banca que está fazendo a heteroidentificação.
Terminamos de comer e começamos o processo de tomar banho, vestir roupa e nos arrumar pra sair. No meio disso, mais conversas sobre homens e mulheres que nós beijamos. Uma de nós, conta que tá tendo um caso com um gringo em Salvador. Eu não vou dizer qual de nós, apenas que não sou eu, mesmo querendo ser. Lembrem-se que “estou” monogâmica.
Eu recebo a tarefa de passar a roupa de todo mundo com uma passadeira a vapor. Disseram que me escolheram porque eu soube usar bem o aparelho antes, mas é pura mentira. Minha tentativa anterior passando roupa com aquele troço foi totalmente amadora, com resultados pífios. Com certeza foi porque sou a mais velha. Malditos 2 anos de diferença.
Vamos todas de branco. É Dia da Consciência Negra, 20 de novembro de 2025. Nossa performance vai acontecer em um armazém, no Pelourinho. Saímos de casa achando que estávamos atrasados e chegamos lá cedo demais. Jonata insistiu pra irmos de carro, porque não queria que a gente saísse andando como um grupo todo vestido de branco.
A performance consiste em uma ação de mascaramento. Nós amarramos folhas em nossas cabeças, formando máscaras. Depois, andamos pelo ambiente, interagindo com o espaço. Resolvemos fazer a apresentação no meio da rua. O céu está nublado, com cara de que vai chover logo, então a gente se apressa pra começar antes que a água caia.
São três cadeiras na rua, formando um triângulo. Eu, Jonata e Nayara sentadas em cada uma delas. No meio, uma caixa com as folhas e fios de sisal. Vamos pegando as folhas e os fios aos poucos e cada um vai construindo sua própria máscara. Em um determinado momento, temos que nos levantar para começar a andar, mas a chuva começa antes disso.
Nayara é a primeira a se levantar, depois Jonata e eu fico por último. Levanto pra não ficar ali sozinho por muito tempo, mas na verdade queria ficar ali sentado tomando chuva até acabarem as folhas.
Depois disso, seguimos cada um por si. Nayara entra no armazém antes que a chuva engrosse, enquanto eu e Jonata continuamos à céu aberto, andando pela rua. Eu sinto dificuldade de ficar parado. Fico circulando, mexo os braços, vou de um lado pro outro, olho pro céu. “Performático”, Jonata diria depois. Ele, por sua vez, andou pouco. “Escultural”, eu diria.
O público, obviamente, não tava afim de se molhar. Foram pra dentro antes mesmo da Nayara e ficaram assistindo a rua pelas janelas.
A água da chuva faz minhas folhas pesarem. Algumas escorregam e mudam de lugar na máscara, outras caem. Jonata entra no armazém e eu o sigo logo depois. Lá dentro, a chuva insistia em cair, dessa vez através de goteiras. Espalharam alguns baldes pelo chão embaixo de onde a água caia. Eu, não satisfeito com o quanto eu já tava molhado, resolvo entrar em um deles e ficar lá parado como uma planta em um vaso, recebendo as gotas na cabeça.
Iasmim está no mesmo cômodo que eu, digitando algo no celular. Eu aceno pra ela, como se pedisse algo. Ela entende o sinal e começa a me registrar em meu vaso, como eu queria.
O tempo passa.
Volto a andar.
Encontro Jonata e Nayara pelo caminho. Eles já estão sem máscara, então eu preciso tirar a minha também pra finalizar a performance. Por motivos dramáticos, volto pra rua pra fazer isso, pegando chuva de novo. Arranco as folhas como se estivesse me descascando como uma cebola. No final, cato todas no chão e monto um buquê. Não pra oferecer a ninguém, mas pra não deixar o que caiu espalhado.
Acho interessante contar pra vocês que, originalmente, eu não faço parte dessa performance. Ela é resultado de uma pesquisa do Jonata e da Nayara e sempre foi apresentada só pelas duas. Eu era uma espécie de participação especial, exclusivamente em Salvador. Então minha intenção inicial era não interferir tanto no ato e só tentar curtir o momento. Mas aí veio a chuva, que transformou tudo em um banho de ervas e fez com que pra mim aquilo deixasse de ser uma apresentação pra se tornar um ritual. Me senti me limpando de muita coisa que levei comigo pra viagem e que eu não queria levar de volta pra BH.
Às vezes a arte começa como apresentação e termina como necessidade. Lembrei da Psicomagia de Jodorowsky. A ideia de que certos atos artísticos simbólicos falam diretamente com o inconsciente, onde a palavra já não alcança, e agem como uma forma de cura. O corpo entende rápido coisas que a linguagem demora anos para organizar.
Não fiz um ato psicomágico consciente, mas algo do mesmo campo aconteceu. Nem sempre a gente escolhe o ritual. Às vezes é ele que nos reconhece primeiro. O acaso da chuva, evento natural, atravessou as plantas, o corpo e a performance, criando simbologia. A arte deixou de ser mensagem e virou ferramenta de cura.
Algumas horas antes, estávamos sentadas, comendo, inventando histórias e tentando organizar o mundo pela aparência. E agora, ali na chuva, eu arrancava folhas do rosto como quem se desfaz de camadas que nunca escolheu através do desmascaramento. No entanto, minha consciência me diz que o ritual não é nada mais do que um símbolo. Nada foi resolvido só com um banho de chuva, ainda é preciso que essas sensações reverberem nas minhas atitudes. Algo saiu com a água, mas é necessário que eu olhe para o que foi embora, reorganize os restos e decida o que de novo vai entrar.
Após o fim da performance, nos reunimos para uma roda de conversa com o público. Ali estão presentes artistas e políticos, que se apresentam e trocam ideias. Eu continuo molhado, porque não me apressei pra trocar de roupa. Me sinto diferente do que me sentia mais cedo. Estou mais calmo, mais solto, mais comunicativo.
O restante da programação do dia do armazém é cancelado por causa da chuva, o que exige uma mudança de planos. Nosso grupo se divide. Nayara e Iasmim saem juntas, eu e Jonata continuamos lá por mais algumas horas.
Jonata e uma das pessoas que assistiu a performance decidem beber cerveja. Eu não bebo. Estou há 103 sem álcool. Por isso peço um café, meu mais novo vício. A luz do Sol se vai com o fim da tarde, mas a chuva continua firme e forte. A hora de ir embora chega e temos que voltar pra casa andando. Assim, 3 bixas saem pelas ruas do Pelourinho de mãos dadas, dividindo um único guarda-chuva que não consegue nos proteger da água, enquanto o povo começa as festas da noite.
TeAto da Noite (Hyu Oliveira)
É sábado. Primeiro dia de sol desde que chegamos e primeiro dia de folga. Hoje não tivemos horário, nem tarefa, só existimos.
Acabamos de voltar da praia. Passei o dia inteiro no mar. A última vez que entrei no mar foi em 2023, no Rio de Janeiro. Lembro pouco do que aconteceu naquela época, mas lembro da água. Tinha um tom marrom e estava muito suja de lixo. A água aqui é diferente.
Fui à Praia da Barra com Jonata. Passamos a tarde na areia, conversando. Em algum momento, entro no mar e vou até o fundo. Espeto o mindinho da mão em um ouriço-do-mar. Uma dor rápida, pontuda, que me faz sair da água xingando baixo. Não foi nada grave, só o suficiente pra me lembrar de olhar onde encosto.
É a primeira vez que entro no mar do nordeste de verdade. A água é menos fria do que eu esperava, clara, com poucas ondas e eu conseguia ver pequenos peixes nadando. Gosto de peixes vivos. Eles passam rápido, refletem a luz e somem. Há pedras grandes no mar, algumas cobertas de musgo, formando pequenas piscinas naturais de areia entre elas. Fico entrando e saindo dessas piscinas, como se mudasse de quarto dentro da mesma casa.
Jonata comenta que a avenida Sete de Setembro lembra a rua Sapucaí, em Belo Horizonte. As duas fecham o trânsito no domingo e viram ponto de encontro de pedestres, boêmios e bêbados. Pessoas andando sem pressa, sentadas em grupo, bebendo, conversando alto, ocupando o espaço.
Mais tarde, vou à Praia da Gamboa com Nayara. Ela é feita de pedras, cercada por uma comunidade de concreto que sobe o morro. Casas empilhadas, bares pequenos, cadeiras e mesas espalhadas pela praia. Luzes amarelas começam a acender conforme o dia cai. Barcos circulam perto da margem e às vezes tenho que nadar desviando deles. Um mar manso, quase parado, que não exige luta. Dá pra ficar boiando sem esforço, ouvindo só o próprio fôlego e os sons submarinos.
É uma paisagem romântica, confesso, e parece que outras pessoas pensam igual. Vejo muitos casais que observam o mar, sentados lado a lado. Começo a tirar fotos da praia e do mar. Envio algumas pro boy por mensagem, que diz que ali é um point onde as bixas vão tirar foto pra biscoitar. Minhas fotos não foram por biscoito, só queria registrar a paisagem. Percebo que eu quase não apareço nas fotos que tirei até o momento na viagem e isso me incomoda, então peço pra Nayara tirar algumas com as casas iluminadas no fundo.
Saindo da praia, eu e Nayara visitamos o Museu de Arte Moderna. Estava acontecendo a exposição “ORIXÁS”, do artista Josafá Neves, o Negozafa. O museu funciona em um prédio que antes era uma capela católica. O contraste é imediato: o espaço branco, alto, com arquitetura de igreja, ocupado por imagens de orixás. Curioso, né? Os orixás habitam uma construção católica através da arte. Não invadem, mas ocupam.
Lembro do altar do Terreiro Ilê de Oxumarê e de tantos outros, onde o contrário acontecia. Santos católicos ocupando uma estrutura do candomblé, não por arte, mas por segurança. Uma estratégia para proteger o culto.
- Se a polícia invadisse o terreiro, a gente puxava a cortina, fechava aqui, ó, e todo mundo vinha pra cá pra ajoelhar e rezar.
O famoso sincretismo religioso.
Eu não tenho religião, mas gosto de observar como diferentes crenças se misturam, se aproximam, se encontram. Mãe Mônica contou que em Salvador muitos evangélicos frequentam os terreiros escondidos de seus pastores. Contou também que muitas pessoas do candomblé estão se tornando crentes nos últimos anos e que eles levam os conhecimentos do terreiro para as igrejas. Em certos casos, isso se torna uma arma contra os praticantes do candomblé. Um exemplo dado por Mônica foi que os crentes reconhecem os símbolos nos trajes de quem está de preceito e abusam desse momento para gerar conflito com uma evangelização forçada.
Já está escuro quando eu e Nayara voltamos pra casa. Jonata já está lá, dormindo. Eu deito na minha cama. Corpo cansado, mas ainda energizado, com sede de movimento, como depois de um banho demorado.
Não tenho muito tempo pra descansar. Nayara quer levar todo mundo pro show do Ilê Aiyê, na Senzala do Barro Preto, no Curuzu.
Chegando lá, entramos no salão e a banda já estava tocando. Vejo muitas cores. Pessoas vestidas com tecidos estampados, misturando tons. Muitas misturas diferentes, mas ainda assim, tudo combina.
O palco é iluminado. Cantores, dançarinos e músicos compartilham o espaço. Na frente do palco, uma orquestra negra: vários tambores sendo tocados em conjunto. O grave bate forte.
Estou com um leque que comprei na Feira de São Joaquim. Nayara disse pra eu levar, porque tinha uma música do Ilê Aiyê em que as dançarinas dançavam com leque. Na terceira música, a cantora pede pro público levantar os leques. A dança começa. Eu balanço o meu e outras pessoas fazem o mesmo. Os portadores de leque se reconhecem. Trocamos olhares e sorrisos. Cada leque é de uma combinação de cores diferentes.
O show continua. Em vários momentos eu saio do salão para fumar, pegar um ar e descansar a audição. Circulando, percebo que é o local com o público mais diverso que visitamos até agora. É o primeiro em que identifico travestis. Elas circulam, dançam, conversam, ocupam.
O Ilê para de tocar e depois começa um show de samba. O cansaço bate forte. Quero sentar, mas acabo dançando mais um pouco. Em determinado momento, uma roda se forma. Os cantores chamam pessoas para sambarem no meio. Pessoas de todos os tipos entram na roda. Cada uma dança de um jeito. O público grita e aplaude todo mundo. Os passos mais arriscados chamam atenção: pulos, descidas rápidas, pés que cortam de um lado pro outro. A dinâmica me lembra os bailes de vogue.
Pela primeira vez na viagem, quis beijar alguém. Me encantei por uma pessoa de tranças que está junto com as travestis. Dança, canta, feliz. Meus olhos a seguem pelo salão, mas ela não olha de volta. Melhor assim. Estou cansado demais pra qualquer conversa e, de qualquer forma, não ia dar certo. Estou monogâmica.
Na hora de ir embora, uma confusão. O carro não desce até a senzala. O motorista pede pra gente ir até o início da rua. Andamos até lá só pra ele cancelar justo quando chegamos.
Outro carro chega e entramos. Eu fico calado todo o trajeto. Jonata e Nayara conversam, mas não consigo acompanhar os temas. Me sinto pesado de sal. Sal do mar, sal do suor.
Em casa, permaneço em silêncio. Jonata e Nayara preparam um macarrão juntos. No banheiro, tiro a maquiagem e a roupa. Tomo um banho pra tirar o sal do corpo.
O macarrão fica pronto, mas eu não vou comer. Digo que não estou com fome, mas a verdade é que eu só comeria algo doce no momento. Além disso, já estou deitado e cansei de conversar com Jonata e Nayara. Prefiro conversar com vocês.
Agora, chegamos ao exato momento em que estou escrevendo este texto. Estou de shorts, sem camisa, usando fones de ouvido com cancelamento de ruídos. A luz da tela do computador ilumina meu rosto. Estou isolado, mas conectado com vocês que estão lendo. Estou no passado, mas você lê isso no presente. No futuro estão nossos sonhos. Tanto os sonhos que vou ter hoje depois de dormir, quanto os sonhos que você vai ter no seu tempo. Você está nessa encruzilhada junto comigo, mas nenhum de nós está se vendo. Só que você, depois de tudo que te contei sobre mim, pode imaginar como sou.
Por isso eu te peço que, antes de irmos dormir, crie uma imagem de mim. Desenhe, escreva, visualize, o que preferir. Não importa como, mas crie.
Quero que você observe a imagem e me imagine flutuando no mar, de barriga pra cima. Eu posso estar vestido ou não. Caso esteja, pense nas cores da minha roupa. Se não estiver, pense nas cores que estão no céu. Descreva as cores que você imaginou pra mim e guarde essa memória.
Amanhã ou outro dia qualquer, quando você lembrar disso, quero que você se vista com essas cores e saia de casa por alguns minutos. Observe as pessoas pelo caminho, buscando encontrar alguém que combine com sua paleta.
Quando encontrar, troque um olhar, sorria, não diga nada. Volte pra casa e escreva duas frases em um papel. A primeira deve ser o que você gostaria de ter dito pra aquela pessoa. A segunda deve ser o que você gostaria de ouvir dela.
Antes de dormir, leia o papel 3 vezes. Feche os olhos, descanse a mente e durma. Depois que acordar, tente se lembrar de um sonho. Quero que você me conte o que sonhou. Se não puder me contar diretamente, conte para a imagem que você criou de mim em sua imaginação.
Te respondo assim que puder.
Nota metodológica
Este caderno de campo integra um processo de pesquisa artística e territorial desenvolvido a partir de deslocamentos, imersões urbanas e experiências sensoriais vividas na cidade de Salvador. O registro não se pretende neutro ou totalizante, mas assume uma escrita situada, atravessada pela percepção do corpo, pela escuta, pelo olhar e pela memória.
A metodologia articula procedimentos da etnografia urbana, da pesquisa em artes e dos estudos culturais, valorizando a observação participante, o contato direto com os territórios e o diálogo com saberes afro-brasileiros e populares. Os registros foram produzidos durante caminhadas, permanências e encontros em espaços públicos, religiosos e culturais, considerando cheiros, sons, ritmos, arquiteturas e relações sociais como elementos constitutivos da análise.
A escrita em forma de caderno de campo preserva o caráter fragmentário, sensível e reflexivo da experiência, compreendendo a cidade como um campo vivo de disputas simbólicas, políticas e econômicas, onde memória, ancestralidade e urbanização se tensionam continuamente.
Jonata Vieira
