Terreiros em Conexão 2025
Após o lançamento de Terreiros da Diáspora (2024), a companhia retoma a pesquisa sobre as origens e ramificações dos terreiros Netos de Bate Folhinha e Ilê Asé Odé Inlê, em Contagem, conectados a casas no Barreiro (BH) e em Salvador (BA).
2/12/202613 min read


Após o lançamento do livro Terreiros da Diáspora, em 2024, a companhia retoma as pesquisas e investiga as origens e ramificações dos terreiros Netos de Bate Folhinha e Ilê Asé Odé Inlê, ambos localizados na regional do Nacional, em Contagem. As duas casas são filhas de terreiro situado no Barreiro, em Belo Horizonte, e netas de casa na cidade de Salvador, Bahia.
Neste novo processo, foram realizadas conversas e colhidos depoimentos com o objetivo de aprofundar a história das casas e de suas lideranças, refletindo sobre as dinâmicas contemporâneas da tradição. A comunidade Netos de Bate Folhinha, sob a liderança de Sônia Talanderê, segue como importante terreiro de Candomblé de tradição Congo/Angola, reafirmando-se como referência em Minas Gerais. Ao mesmo tempo, o Ilê Asé Odé Inlê mantém vivas as tradições da nação Ketu, sendo neto da Casa de Oxumarê, em Salvador (BA).
Como forma de democratizar o acesso à pesquisa, a companhia criou os Cadernos de Campo e, a seguir, disponibiliza trechos dos depoimentos de integrantes-chave das duas casas.
HERANÇA por Mametu Talanderê
Netos de Bate Folhinha
Esse ano faz quarenta anos. Dia 26 de agosto de 1986 foi o dia da inauguração dessa casa.
Olha, eu sou diferente. Porque tem pessoas que caem de paraquedas dentro do Candomblé. Eu não caí de paraquedas dentro do Candomblé. O meu pai era candomblecista. O meu pai foi o primeiro a tocar um atabaque dentro de Minas Gerais. Esse atabaque está guardado comigo. Veio de Nazaré das Farinhas. Eu fui criada dentro do Candomblé. Eu namorei novinha, já não queria mexer com Candomblé, queria namorar.. Conheci o pai dos meus meninos quando eu tinha 12 anos. Você acredita?
O meu pai tinha uma casa… O primeiro candomblé do meu pai foi na rua Cônego Floriano, 151, Bairro da Graça, Tenda Espírita Virgem Maria. Eu vou levantando essas questões agora. Já achei algumas coisas e estou procurando mais coisas pra mostrar. Então, quando eu fiz o santo, em 1972, eu tive o Warley. A idade que eu tenho de santo, ele tem de vida, porque ele nasceu em setembro e eu fiz santo em novembro. E ele tirou esteira comigo...
Aí a gente vai... A minha mãe de santo, que era uma amiga do meu pai, abriu uma casa. Ela fez santo, com o pessoal lá do Bate Folha, lá de Salvador, que vieram e fizeram. Ela foi pra lá. Minha mãe ficou seis meses lá em Salvador, morando dentro da roça. E eu, por amizade, eu fui pra roça quando ela começou a construir. A gente era muito amiga e eu participei da casa, da minha casa, porque esta casa aqui não é minha, é dos meus filhos de santo. Eu não fiz santo aqui. É deles. A minha casa é no Barreiro (BH), rua Campo Grande.
Estou aqui. Aqui no Nacional era tudo sem calçamento… Não era nada disso. Nacional? Eu falo com meus meninos aqui: “Eu trouxe o progresso, minha gente!”. Porque enquanto eu não morava aqui não tinha nada. Foi só vir, Oxóssi trouxe o progresso. Ele é o dono, ele é o homem da prosperidade. Nem candomblé não tinha nenhum.
O candomblé na minha vida é tudo de bom. Quando eu falo de candomblé, eu falo de orixá, não de pessoas. Eu falo de orixá, de nkisi – o nome que quiser dar –, santo… Então, esses nomes que eu estou te falando são maravilhosos. Eu sou de Mutakalambô – que quer dizer Oxóssi – Yemanjá e Iansã. A minha cabeça gira nessa... Era a mesma cabeça do meu pai. E que é a mesma cabeça da minha irmã. E da outra irmã também.
FUNDAÇÃO DO TERREIRO por Kabiexi
Netos de Bate Folhinha
Eu cheguei aqui em 85. Minha mãe montou o candomblé. A inauguração desse candomblé foi em 86. A gente começou a construir, a ajudar a construir. Tem a história da parede que caiu, o cavalo entrou e derrubou a parede. Meses antes da inauguração, porque ela marcou pra inaugurar em agosto (De 86) com a festa do boiadeiro.
A casa faz 40 anos ano que vem (2026). Então, tipo assim, abriu o muro e caiu. No fundo do barracão entrou um cavalo aqui, derrubou a parede toda. A parede tinha acabado de ser feita. Foi quando eu vim aqui e conheci. Ela tava construída, mas não mexia. Aí eu vim conhecer, mas começou. Era uma casa totalmente diferente do que é hoje. Se eu não me engano, foi dia 26 de agosto a inauguração da casa.
Aí, em 87, eu fiz santo. Em abril de 87 – a casa inaugurou em 86, em agosto. Em abril eu confirmei. Mas, antes de eu confirmar, confirmou a Tualembê, que é a primeira filha de santo iniciada aqui em casa, que foi em 86. Ela é de novembro. Logo em seguida eu tive mais dois irmãos meus que recolheram. Só que não foi aqui, foi na casa da minha mãe de santo. Aí veio Edivaldo em outubro, Tualembê, em novembro. Nenzinha, que é minha irmã de santo na Bahia, que hoje é a sucessora da nossa matriz. Filhos do Bate Folhinha. Ela fez santo em janeiro. E eu fiz santo em abril.
Aí eu confirmei com 11 para 12 anos. Confirmei com a minha mãe de santo lá do Barreiro. Filha lá dos filhos do Bate Folhinha. Nós somos netos do Bate-folha. Então confirmei em abril. Eu sou do dia 26 de abril de 1987. Logo após a minha confirmação, aí eu vim morar aqui. Cozinha pequena, freezer pequeno. Estava até comentando ontem que como a gente fazia candomblé antigamente. Você fazia com uma caixa de cerveja o candomblé inteiro. Todo mundo ficava bêbado. Hoje é 1400 caixas de cerveja e ninguém fica bêbado. Mas era tempo bom. O pessoal do candomblé era até mais... Não é que hoje não é unido, mas era mais unido, mais firme.
A FUNDAÇÃO DA CASA E O TERRITÓRIO DE ORIGEM por Débora Ty Òsun
Ilê Asé Ondé Inlê
Quando você entra: à direita tem a casa de Onan; à esquerda tem a casa de Exu, onde moram – até preciso fazer essa separação – os exus catiços e os exus de Ketu. Continuando: à esquerda ainda tem o quarto de Oxóssi e de Ogum; tem Ossãe; a casinha de caboclo; e o quarto de Obaluaê. À direita, depois de Onan, nós temos um jardim onde a gente coloca algumas ervas, as coisas que a gente precisa; o fogão à lenha, que tem que ter em toda casa de candomblé – quem não tem, morre no gás, viu?. Então a gente tem o fogão a lenha e a cozinha do candomblé. Seguindo direto você já sai dentro do barracão.
A casa iniciou no ano de 1994, no bairro Caiçara, em Belo Horizonte, com meu falecido marido, Helber, todo mundo conheceu ele por Odélêcy. Em 95 (1995), ele comprou esse lote e começou a construir. Em 95 mesmo ele tirou o centro lá de Belo Horizonte, trouxe aqui para Contagem e começou a tocar aqui. Aí foi um processo um pouco demorado, né? Por causa da construção e tudo… Mas o barracão aqui já estava pronto, entre aspas – já dava pra poder tocar as sessões e tudo. Quando foi em 96, ele fez a inauguração daqui, já em Contagem. Fez a inauguração da casa, Ilê Asé Odé Inlê. Com isso ele teve muitos filhos de santo, fez muita gente. Muita gente passou por aqui.
Assim, a gente teve um começo também muito difícil: aqui era um bairro que não tinha água; não tinha calçamento; ônibus era – como a mãe Sônia já deve ter dito – muito precário... Mas a gente conseguiu levar e, graças a Deus, hoje a gente já está aí com 31 anos de casa aberta. Quando foi no ano de 2010, ele descobriu que estava doente, com câncer. Nós descobrimos em abril de 2010, ele faleceu em dezembro de 2010, com 37 anos. Aí, desse falecimento dele, nós passamos por um período de três anos com a casa fechada. Nesse período, pode-se dizer que saiu todo mundo, todos os filhos dele, que eram daqui, todos saíram. Ficou só o Rodrigo, que hoje está ainda na casa. E nesse período foi muito difícil pra mim, porque eu fiz santo, mas eu nunca, ao contrário de todo mundo, eu nunca fiz santo com o intuito de liderar uma casa, de ter filho de santo, de ser – como todo mundo diz aí, grosseiramente – uma mãe de santo. Eu nunca quis isso pra mim. Então foi assim, pra mim foi um choque imenso, uma mudança de rotina, de vida muito grande, porque eu tinha cabeças na minha responsabilidade, uma casa de candomblé na minha responsabilidade. E eu estava muito leiga ainda do que era ser uma liderança. Nesse período do falecimento dele, eu entrei pro Axé Oxumarê.
Passaram esses três anos e a gente reabriu a casa, graças a Deus está aberta até hoje. Porém, dentro da nossa religião de matriz africana, quando o zelador da casa falece, quando ele não deixa em vida, tem a escolha do herdeiro, aquele que vai sentar na cadeira dele. E como ele não deixou em vida, nós tivemos que ir pro jogo e olhar com o Oxóssi quem seria o herdeiro, porque a casa é de Oxóssi, que o Helber era de Oxóssi. Nisso foi escolhido meu filho mais novo, o Fábio.
Aqui foi construído com dinheiro de preto velho, de exu e de boiadeiro. Abaixo de Oxóssi, foi com esse dinheiro que tudo que você está vendo aqui foi construído.
Hoje a gente pode conversar, hoje a gente pode sair na rua vestido, ainda existe preconceito, existe intolerância, mas é bem menos do que era antes. E eu acho que a gente precisa fazer perpetuar as casas, que as casas não acabem, que existam pra eternidade, porque é muito triste quando a gente vê – que é o que mais acontece – zeladores falecendo, não tem uma família carnal dentro da religião e a casa acaba. Isso é o que mais acontece.
HISTÓRIA NO CANDOMBLÉ por Rodrigo de Airá
Ilê Asé Ondé Inlê
Minha história dentro do candomblé é uma história bem linda. Eu sou de família católica, meus pais são católicos, eu sou filho único, então eu tive todo o respaldo dentro do catolicismo.
E lá pelos vinte e poucos anos, vinte e dois, vinte e três anos, eu conheci a umbanda, em um terreiro que tinha lá no Caiçara. E aí, desde que eu entrei, foi uma consulta espiritual também, uma limpeza. “Ó, seu caminho é por aqui”. Só que, desde o início, eu lembro muito bem das entidades falando: “ó, você tá aqui, mas seu caminho é como se fosse uma linhagem africana, é Candomblé, você não é de Umbanda”.
Mas lá eu fiquei uns seis, sete anos. O senhor ficou doente, e alguns irmãos que frequentavam essa casa de Umbanda foram para o Candomblé, cada um para uma casa, e me chamaram para conhecer. A primeira casa de candomblé que eu visitei, que eu lembro, foi a do senhor William Brandes, que hoje já é falecido. Hoje tem o filho dele, que segue a casa, que está no comando da casa. Eu fui conhecer. E essa que era minha irmã lá da Umbanda falou: “vai ter uma festa em Sete Lagoas, uma festa de Iansã, vamos?”. E eu fui. E lá eu conheci o meu pai de santo, o meu babalorixá, o finado Helbert de Oxóssi. Acho que na próxima semana ia ter uma festa aqui nessa casa. Ele falou: “vai lá conhecer, para você conhecer a casa e tudo”.
Eu lembro muito bem que essa festa era uma festa de Exu. Eu vim e fiquei. Eu já tinha umas entidades da Umbanda, e a entidade manifestou aqui também. E falaram: “vem para você conhecer, começa a frequentar”. Porque o Candomblé é bem diferente da Umbanda, tem várias nuances diferentes, que não preciso entrar em detalhes agora. Mas: “vem conhecer, começa a frequentar”. Como tinha as sessões anteriormente, tinha essa curiosidade de fazer as sessões de quinze em quinze dias, geralmente no sábado. “Vem fazer, vem participar, vem conhecer”. E eu entrei.
Até que o orixá começou a manifestar. Aí eu fiz um borí, que é um ritual de abertura do seu caminho para entrada no candomblé. A gente fala que o santo te chamou, te escolheu, e aí eu tive que fazer o santo. Em 2002, eu recolhi. Passei por todo o processo iniciático do Candomblé. Então, dia 2 de agosto de 2002, Airá veio em terra dar o nome dele nessa casa. E de lá para cá várias coisas aconteceram. Fiz minha obrigação de um ano, fiz minha obrigação de três anos, e fui criando, aprendendo muito, com a ajuda do meu babalorixá, do finado babalorixá, e da Débora, que sempre foi o braço direito do pai de santo. Ela sempre esteve presente em todas as minhas obrigações, me ensinou bastante coisa, me cobrava, porque o meu pai de santo, como eu falei, era muito rígido. Ele cobrava dela para estar em cima, e a gente aprendia mesmo.
Hoje eu vim para cá, sou filho de santo. Hoje em dia, meu zelador de santo, meu babalorixá, é o Gerson de Oxóssi, filho da Casa do Oxumaré. Então, hoje eu sou um neto da Casa do Oxumaré, matriz em Salvador. E a Débora acompanhou a minha iniciação desde que eu iniciei no Candomblé. E hoje, por coincidência – o orixá é muito sábio – a gente é irmão de santo. A gente deu obrigação de 14 anos juntos.
E nessa obrigação de sete anos foi muito surpreendente, porque foi realmente uma surpresa: eu ganhei um cargo dentro da casa, que é de babakekerê. O que significa babakekerê? Pai pequeno. Então, na hierarquia do candomblé, se for pesquisar, tem o babalorixá e tem o babakekerê, como se fosse o presidente e o vice-presidente, que têm uma responsabilidade muito grande dentro da casa. É o braço direito do pai de santo.
Hoje eu me considero – a Débora é minha irmã de santo, não é minha ialorixá – mas eu me considero um braço direito dela também dentro da casa, porque é ela quem está na direção da casa hoje, desde que o babalorixá faleceu. Então, desde 2002, já vão para 23 anos de Candomblé, mais uns 8 de Umbanda. Então tem uma história de uns 33, 35 anos dessa religião de matriz africana.
O TERREIRO ME DEU RÉGUA E COMPASSO por Babá Atinsá
Ilê Asé Osumarê
Meu nome é Luis Augusto, mas todas as pessoas me chamam de Pai Tinho. Tem pessoas até que acham que eu sou o pai de santo do terreiro de Oxumarê, o que causa até ciúmes – um ciúme bom. Mas todas as pessoas aqui em cima, pelo bairro, nos lugares adjacentes, onde eu passo, me chamam de Pai Tinho.
Eu sou Babá Atinsá do terreiro Oxumarê. No terreiro Oxumarê eu tenho alguns postos, mas um dos que eu mais falo é esse de Babá Atinsá, que é a pessoa que cuida do orixá Exu e de todos os orixás que estão cultuados, que estão assentados em árvores. Eu sou responsável por cuidar deles, zelar, olhar como está a árvore. Se vai ter festa, a gente organiza a festa. E por aí vai. Eu cuido dessa parte também, junto com outros, porque não sou só eu. Mas eu tenho esse posto de Babá Atinsá.
Eu cheguei no terreiro de Oxumarê porque eu vinha muito aqui. Minha tia Nilzete é minha tia, irmã de meu pai. Ela era muito amiga da minha mãe. Então minha mãe vinha muito ao terreiro, e eu vinha esporadicamente, principalmente em festas, à noite, nos bastidores. Eu acompanhava, de vez em quando vinha de dia, mas à noite eu sempre estava aqui, assistindo às festas de minha tia Nilzete.
Eu ia fazer o santo com ela. Mas, nesse momento em que a gente estava se aproximando, ela faleceu. Então eu nem queria mais ser dessa religião, com a morte de minha tia Nilzete. Eu sou apaixonado por ela. E olha que eu não convivi tanto com ela como os filhos de santo dela ou os filhos carnais, mas é um amor ancestral. Até hoje eu tenho a sensação de que, a qualquer momento, ela vai chegar aqui e dizer: “eu cheguei”. Eu não tenho minha tia Nilzete como morta. Isso é um sentimento que eu descobri após a morte dela. No momento em que a gente estava se aproximando, eu era muito tímido, e ela brincalhona, muito amiga da minha mãe. Ela já tinha dito que ia fazer o meu santo, mas faleceu. E eu disse: “ah, não quero mais, não”. E não queria mesmo.
Mas aí eu tive um sonho com a minha tia Nilzete, e por isso eu voltei. Eu me lembro que eu estava vindo do Engenho de Brotas, que é esse bairro aí para cima, do outro lado. Eu moro mais pra frente, na Vasco da Gama, minha mãe ainda mora lá. Eu vinha andando naquela pista do meio, do outro lado, e quando eu olhei pra cá, pra cima, eu tive a impressão de ver minha tia Nilzete, com a saia azul de rechilieu – eu vou pegar a foto para mostrar para vocês – e uma bata branca. Eu tive essa impressão: quando eu olhei pro topo da escada, eu vi ela ali, em pé, me chamando, com a mão, para me ensinar.
Eu estava passando e olhei para cima. Eu nunca mais tinha vindo aqui após a morte dela. Ela faleceu do dia 29 para o dia 30, e o dia 29 é o meu aniversário. Isso me marcou muito até hoje. Acho que é por isso que eu também não sou muito chegado a festejar aniversário nesse 29 de março, porque ela faleceu nessa data, à noite, chegando para o dia 30.
E aí eu tive essa impressão de ter visto ela fazendo sinal, me chamando. Eu olhei de novo, assim, apurei as vistas, e quando eu apurei as vistas e olhei outra vez, ela não estava mais ali em cima. Ela já estava lá em frente à Babá Iroko, do mesmo jeito, me chamando. Eu disse: “ah, eu estou vendo coisa”, e segui.
Quando eu sigo para frente, é quando eu encontro o Babá Pecê. Naquele tempo eu não chamava ele de Babá, chamava ele de Pecê, porque a gente é primo, então eu chamava ele de Pecê. Eu acenei. Eu não atravessei: eu estava de um lado, indo para a minha casa, e ele estava do outro lado, vindo para o terreiro. Eu acenei pra ele, falei com ele e segui. Aí eu dei uns três passos. Olhei para trás e ele também olhou. Fiz isso duas vezes seguidas, três vezes. Ele também olhou.
Foi em 1990. Então foi uma morte repentina, porque quando a pessoa está doente, é diferente. Mas ela não: ela foi tirada da gente de forma muito brusca. Foi muito difícil. Eu, que não convivia tanto, para mim foi difícil; imagina para os filhos. Eu estive aqui, vi o Babá lá no cantinho, todo encolhido. E imagino: um dia das mães… Ele devia estar muito ressentido, com certeza. Daquela data em diante eu comecei a me aproximar. Aí eu retomei. Fiz o santo com o Babá Pecê, não foi com a tia Nilzete.
Mas o terreiro Oxumarê foi esse lugar que me deu régua e compasso. Eu agradeço com tudo que eu sou. Agradeço à minha mãe e a esse terreiro. O orixá… eu cheguei aqui, estudei, me formei, sou administrador, fiz administração, fiz pós, mas trabalho muito aqui no terreiro de Oxumarê. Foi o local onde eu me encontrei, onde eu me identifiquei, e que foi só coisa boa na minha vida.
FICHA TÉCNICA
Direção de projeto e organização de textos: JONATA VIEIRA; Pesquisadores: JONATA VIEIRA e NAYARA LEITE; Transcrição: CARMEN MARÇAL; Seleção de textos: NAYARA LEITE E HYU OLIVEIRA.
Trabalho desenvolvido com recursos da Politica Nacional Aldir Blanc 2025.
